23 fevereiro 2012
Se libertar e evoluir

“Se é verdade que nosso organismo traz em si células-tronco indiferenciadas capazes, como as células embrionárias, de criar todos os diversos órgãos de nosso ser, a humanidade também possui em si as virtudes genéricas que permitem criações novas. Se é verdade que essas virtudes estão adormecidas, inibidas sob as especializações e e a rigidez de nossas sociedades, então as crises generalizadas que as abalam e abalam o planeta poderiam permitir a metamorfose que se tornou algo vital. É por isso que não devemos mais continuar na rota do desenvolvimento. Precisamos mudar de caminho, precisamos de um novo começo”.

A Crise da Modernidade – Rumo ao Abismo? Edgar Morin

As palavras de Edgar Morin são marcantes, vão direto ao ponto. Estamos, de certa forma, amarrados as grandes evoluções de nosso tempo e, em meio a tantas conquistas, sentimos que não conseguimos ir além. Talvez nem bem sabemos o que queremos. Isso não vale apenas para os grandes passos do desenvolvimento, para grandes descobertas, para um mundo de conquistas mil. Isso vale para cada um de nós, para o que somos e o que queremos ser. Como diz Morin em um de seus textos, somos capazes de criar e recriar; temos em nós, em nossa essência, essa chance de começar de novo e de, assim, sair de onde estamos para ir para outro lugar. O tal do desenvolvimento pode nos amarrar a um certo caminho onde ficamos viciados a olhar apenas para um determinado ponto, presos em uma rota final que é tida como a ideial. Porém, na encruzilhada de informações, nas rotas diversas que moldam nossos caminhos, podemos optar por uma outra saída, escapando do congestionamento que faz com que todos nós tenhamos a sensação de que precisamos de uma mesma e única coisa para sermos felizes. E, assim, o mundo pode estar se perdendo em uma ideia fixa de que o futuro, o desenvolvimento, estará nas grandes tecnologias, na dominação total da medicina. Na verdade, já é possível perceber uma busca por outros desejos, quando vemos a espiritualidade crescendo, quando sentimos que o consumo exagerado já não é mais o único tema abordado pela mídia – pelos comerciais. Vemos algo um pouco diferente, queremos nos emocionar, queremos voltar a ter sensações puras e íntimas que deixamos escapar por entre os dedos na busca por algo de concreto e teoricamente certo, assinado por especialistas, por doutores. Na ânsia pela segurança, descobrimos que temos mais do que precisamos e continuamos sem saber o que será do dia de amanha. Sentimos medo, ficamos tristes, estamos sozinhos… esse é o tal mas estar da pós-modernidade do qual tanto fala Zygmunt Bauman… Isso é um fato, uma realidade. Seremos eternamente incapazes de saber o que será do futuro, mas podemos experimentar novos caminhos e, assim, quebrar um pouco da rigidez de nosso tempo. Podemos ser otimistas. Vamos ser otimistas!

E na moda, onde isso entra? Entra na história de sair da zona de conforto, de saber que para conquistar algo novo é preciso tentar algo de diferente. Já não há mais certo ou errado, há adequado e inadequado. Temos um mundo de possibilidades e ainda assim estamos insatisfeitos com nossa imagem?! Vamos mudar essa história, em busca de autoestima elevada e satisfação pessoal. Vamos parar de postergar o bem estar. O sistema da moda está repleto de possibilidades e podemos tirar proveito dessas muitas chances que as marcas nos oferecem. Talvez a confiança com nossa imagem está nesse novo caminho, nesse tal novo começo falado por Morin. Nossas virtudes visuais, ou nossas capacidades, não precisam mais estar adormecidas. Vamos nos permitir uma metamorfose, vamos abraçar a felicidade. Sonho?! Talvez sim, talvez não.

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12 fevereiro 2012
Pensando além das lágrimas

Na eterna busca pelo amor, razão e amor conversam mas não se entendem e, assim, alimentam a incerteza

Perder um grande amor, para outra ou para o mundo, dói como perder uma parte do próprio corpo. Dói, literalmente dói. É como se algo estivesse sendo arrancado de você a força, sem anestesia, sem pré operatório. E, com isso, sofremos. Choramos, nos revoltamos, gritamos, brigramos, sofremos como se não fosse possível sofrer mais. Entre as muitas palavras de apoio, nada parece ser útil ou suficiente. Todos os discursos repletos de elogios carregam um pouco daquela dúvida quanto ao real sentido de tudo aquilo, quanto ao real significado daquela história. Se há, de fato, tantas qualidades em mim, ou em você, por que algo assim acontece?! Não há explicação. ”Amar, assim como ser moral, significa estar e permanecer em um estado de perpétua incerteza”. Nunca sabermos o que vai dar certo… e é essa incerteza que alimenta a esperança, ou a falta dela.

Nesse contexto, as melhores palavras, as mais inteligentes, sensatas, realistas, podem vir da pessoa que você menos espera. Podem vir de alguém que já te magoou, que já lhe fez sofrer (ainda que menos) mas que conseguiu com serenidade, diretamente na ferida, lhe lembrar do real sentido de cada decepção. Trata-se de uma passagem, de algo que provavelmente aconteceu para o bem, para o meu (ou seu) bem. Ansiosos por conquistar o que queremos, por chegar onde queremos, acabamos nos esquecendo do que realmente importa,  cobrindo defeitos grandes naqueles que um dia amamos – ou ainda amamos. Estes aparecem com mais clareza quando a tempestade passa, e acordamos para o simples fato de que sim, era pouco demais – ou não era o bastante. Ansiosos por um futuro feliz, sofremos muito e sofremos pelo tanto que dedicamos, pelo tanto que colocamos na mesa. Mas, quer saber, é como me disseram… o mal pode ser cortado antes que vire algo pior e daí há a esperança por dias melhores, por amores maiores (e estes sim, eternos). É o que faz nascer novamente a esperança. Não devemos desistir do amor… devemos, por sua vez, acreditar que há algo de mais incrível para aparecer. Cada pessoa que sai da sua vida é alguém que deixa a porta aberta para outra pessoa e, essa outra, pode sim ser a pessoa certa. Assim como me lembraram, não devemos buscar apenas relacionamentos… se o que queremos é algo mais completo, eterno, devemos estar prontos para deixar o que é passageiro ir e, assim, dar espaço para algo que não se transforme em pura decepção no futuro.

“O amor teme a razão; a razão teme o amor. Cada um tenta viver sem o outro. Mas sempre que o fazem, o problema fica guardado. Esta é, na sua expressão mais breve, a incerteza do amor. E da razão”. Entre seguir a razão e viver plenamente o amor podemos encontrar um meio termo, um ponto que abrigue dois universos tão distantes. Entre sentir e pensar, a junção de tais mundos cai como uma resposta perfeita ao que pode ser a receita para a felicidade.

Trechos retirados do livro “A Sociedade Individualizada – vidas contadas e histórias vividas”, de Zygmunt Bauman

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30 maio 2011
Eterna busca por um novo começo?

Já me peguei agradecendo pela chance de recomeçar, ou mesmo clamando à vida a oportunidade de refazer certas escolhas, certos momentos. Um processo de dependência pelo qual não encaramos nosso poder de melhorar algo, de aprimorar um momento não tão perfeito. Porém, uma leitura certeira e atual me deu uma nova perspectiva sobre a situação do meu (ou nosso) comportamento, muito relacionada a essa questão da compra com peso emocional – mais do que conseguimos imaginar. Essa vontade, constante, de encontrar a tal complexa felicidade nos leva a estar, sempre, enxergando em algum tipo de aquisição a solução para nossos proplemas. Entenda, claro, aquisição não só como algo material, já que entram diversos prazeres que podemos pagar - capazes de nos aproximar da alegria, da satisfação. E isso é o que nos dá esperança, já que temos a certeza, quase que natural, de que a infelicidade já é parte de nós. Não seria isso irônico?! Estamos, por vezes, vivendo como personagens que brincam com seus enredos traçados num mundo de interpretações. A essência, a pureza, perde valor enquanto a maquiagem aparece mais que a real personalidade. Tudo isso escondido por trás de uma cortina de identidade, autenticidade e estilo! Quantas vezes não falamos sobre a importância de ter um estilo bem definido… questão essa que eu, particularmente, já substituí pela importância de se sentir bem. Tem algo mais valioso? E isso o dinheiro não compra. Claro, o dinheiro compra um serviço, compra auxílio de profissionais, mas não precisamos estar sempre ligados – diretamente – à essas pessoas que nos auxiliam, num ciclo de dependência. Insisto na tecla de que qualquer aporte deve ser momentâneo, deve ter data de início e uma perspectiva para fim. Somos capazes de fazer escolhas, escolhas essas acertadas a partir do instante que deixamos de ver complicações no que é simples. “Fugir do próprio eu e adquirir um outro feito sob encomenda – e a convicção de que transformar esse sonhos em realidade é algo que está a nosso alcance”. Temos que nos aceitar e, assim, deixar um pouco de lado essa loucura com o fator “ter”. Ser é a tendência! Ser de maneira pura e sincera! Não existem novos inícios, existe a continuidade em uma vida sem pausas, sem quebras, numa linha ininterupta da qual não podemos nos livrar.

O trecho, e boa parte das ideias do post, vem do livro A Arte da Vida, de Zygmunt Bauman.

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22 maio 2011
Mais que um vôo da fantasia…

Para aqueles que esquecem de sua importância, de seu valor ou posição no mundo, a lembrança de que nem todo fim de linha é o fim para a tentativa. Para aqueles que, por insegurança ou fragilidade, insistem em não observar os dois lados da moeda, esquecendo do quão amplo é o universo, a dica de que não há lógica em levar em consideração apenas a opinião uma pessoa isolada – são tantos os que erram em seus julgamentos. Cada um, cada qual, contribui diariamente para o engrandecimento do mundo, o que faz com que o desinteresse de alguém possa ser rapidamente substituído pela atenção e interesse de outro – por vezes, um presente da vida! Sem a ideia de domínio total de todas as vontades, ou pelo conceito de agradar a todos, a mera consciência de que vai sempre haver alguém mais dedicado, mais disposto e mais aberto a lhe fazer feliz.

Claro que essa procura não deve ser eterna, alimentada pelo constante anseio de perfeição. Imperfeições se completam, se ajudam. O fim de uma reta deve ser encarado como uma curva, como uma bifurcação que muda direções a partir da escolha. E essa escolha, caso infeliz, pode ser alterada a qualquer momento já que somos nós os grandes responsáveis pelos percursos de nossas vida. Não há motivo para abrir mão dessa liberdade. Reconhecer defeitos próprios é muito válido, mas é imensamente maior o valor de colocar em voga qualidades que são potencializadas pelas companhias certas – por pessoas que sabem reconhecer a sorte de ter alguém, assim como você, por perto. Dizer não, tchau, adeus, apesar de dífícil, encurta tanto possíveis sofrimentos…

O trecho de texto é de Zygmunt Bauman em Amor Líquido.

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07 agosto 2010
Vida para o Consumo?

Consumir por consumir, ter por colecionar – ou impressionar. O boom do consumo, já como um problema, exposto claramente sem cuidado ou precaução. Dois lados de uma corrente, entre aqueles que podem se dar ao luxo de ter excessos e os que desejam muito ter todos os produtos e se sentem inferiorizados por não terem tal acesso. Sim, os blogs são uma ótimo meio de divulgação de produtos, propagandas naturais, um bate-papo teoricamente sincero entre quem já conhece e quem quer conhecer algo… mas não são eles também um alimento ao consumismo exacerbado?! Consumir é da natureza humana, ao menos nessa tal pós-modernidade; mas qual o limite entre uma reação natural ao seu tempo e uma doença, um vício?!

Se antes o problema estava no guarda-roupa, abarrotado de roupas já sem útilidade (muitas até com etiqueta) hoje o problema se estende as maquiagens, produtos de beleza, caderninhos (da-lhe moleskine) e até panelas ou livros – nada contra coleções e colecionadores, outro departamento. É aquela velha história da casa que têm uma televisão em cada cômodo e a família, ou casal, não se reúne… não discute pelo canal a assistir, mas também não passa tempo junto e a convivência direta se torna um problema. O excesso. Ceder na atualidade também não existe quando o assunto são as tais escolhas. Se você não tem aquela blusa de listrinhas você não sabe o que fazer e ao invés de procurar soluções alternativas simplesmente corre até a Zara mais próxima e pronto (ufa!), já se sente dentro do contexto esperado e divulgado. Não vamos mais manipular alternativas? Encontrar substituições? A questão de ter tudo virou uma solução eterna, mas isso poda a capacidade de adaptação e a criatividade para solucionar problemas, um drama que posteriormente chega ao saldo bancário defasado ou por vezes endividado.

Não são as blogueiras as culpadas, também não aponto a mídia ou as empresas por um marketing viciante. Culpados, pelos nossos problemas, somos nós que por mais que sejamos um fruto do meio devemos ter consciência para saber os limites entre o querer e o poder. Comprar ou não comprar?! É claro que é sedutor esse caminho, mas seria ele necessário?! A felicidade da compra é efêmera como a de qualquer outra compulsão, apresentando um produto que estará ali para lhe lembrar sempre da sua incapacidade de se controlar. O pagamento, posterior ou direto, fica como memória dolorosa. A gente pensa ou acha que tem a solução dos problemas na hora que compra algo, mas na verdade só estamos caindo mais fundo no buraco. Não são novos começos, são repetições cíclicas de um vício devastador. Cabe a cada um ter a consciência de comprar o que quer, precisa e pode.

Todas as frases são de Bauman, retiradas do livro Vida para Consumo. O título no post, de fato, já direciona.

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