Conversinha Fashion » RichardSennett
25 julho 2011
o blog e o fantasma da inutilidade

Uma conversa casual com colegas de trabalho, sobre blogs de moda, estilo, beleza e afins, levou a uma reflexão. Uma dessas conversinhas de mulher, quase uma divisão de informações, que trazem pontos interessantes e importantes – a prova viva do valor da troca de impressões. Citando os blogs regionais, ainda pouco (ou nada) conhecidos além das fronteiras de Belo Horizonte, percebemos algo que acontece, também, com uma enxurrada de outros blogs espalhados pelo país (e mundo), um fator interessante na construção dos mesmos; porém, é um pouco mais estranho observar, e analisar, quando você conhece, mesmo que por alto, os personagens da história. O que estava em pauta, ao menos não a princípio, não era apenas o layout, os looks ou a capacidade de escrever; a questão era, até que ponto vale a pena, e é seguro, revelar sua intimidade em um tempo onde já somos tão vigiados. Tamanha exposição pode trazer fortes consequências, que vão muito além de olhares de cobiça e comentários invejosos. Isso tudo, talvez, seja o perfeito alimento para o alterego e para a vaidade de quem posta suas ricas aquisições, suas coleções de bolsas, relógios e compras que superam, facilmente, os cinco dígitos em uma sacada só. Sequestros, assaltos, são parte de toda e qualquer sociedade. Já pensou? Enquanto se clicam nas portas de suas casas, mostrando sua intimidade, indicando rotina, de salão à dentista, de dermatologista à academia, alguém, não muito bem intencionado, pode estar do outro lado da tela planejando algo não tão maravilhoso. Sem contar aqueles que envolvem filhos e amigos nessa brincadeira perigosa, o tal desejo de mostrar-se interessante, vivo, antenado, ligado nos melhores programas ofertados, pode ter um preço caro.

A Cultura do Novo Capitalismo, de Richard Sennett

Aproveitando o gancho, é possível ir além e pensar na raiz de toda essa nova (não tão nova) mania. O blog pessoal, definido como espaço de moda, estilo, identidade, compras e troca de dicas, acabou virando desculpa para aqueles que, por alguma razão, ainda se sentem perdidos quanto a sua posição no mundo. O tal fantasma da inutilidade, tão temido – principalmente por aqueles afortunados que, por casos do acaso, podem se dar ao luxo de viver por conta do ócio – faz brotar a obrigatoriedade de uma profissão. Assim, o blog cai como uma luva e cobre o tal ócio justificado que é, aos olhos do mundo, muito mais poético. Não há mal em ser herdeira – e só. Em outros tempos faziam-se boas ações, caridade, hoje até isso caiu em desuso… pois o que importa, agora, é ser uma referência (uma it girl!). Uma lástima. Claro que essa desculpa perfeita serve apenas para alguns exemplos (sem generalizações). Porém vale lembrar que, entre Thássias e Marriahs, houve algo de novo, ou interessante. Thássia seduz por sua elegância natural, seu senso estético que cativa a todos e ela é top referência para quase todas minhas clientes, que amam o estilo da garota. Já Mariah faz suas fotos maravilhosas, posadas, com imensa qualidade, fruto não apenas do trabalho de uma ótima fotografa, mas principalmente de sua intimidade com a câmera; ou seja, ela desempenha bem o seu papel.

Talvez, mais do que jogar com o blog como um reality show pessoal, que os leitores acompanham como novela, ansiosos pelo próximo post, vale cuidar um pouco mais dos detalhes – da escrita, bem feita, ao conteúdo – deixando de lado a poesia do “minha vida é um livro aberto”. Para as amantes dos looks do dia, da exibição de compra ou apresentação de produtos de beleza (ou tratamentos estéticos) fica a dica de preencher as linhas com um pouco de informação, nem que sejam motivações pessoais e razões para tal escolha; imagens, por imagens, temos olhos para assistir ao mundo passar. Explicar-se, as vezes, pode ser melhor que se calar. Talvez isso tire, de alguma forma, o foco da exibição gratuita. Esse tempo da vaidade, essa era de exposição sem limites, tráz a tona a possibilidade de consequências incertas que só serão descobertas no futuro – em outro tempo.