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27 novembro 2011
Extensões do homem

Meios de comunicação e, por tal razão, extensões do homem, adornos como a roupa complementam o que somos e mandam suas mensagens

A informação de que a roupa é uma extensão do homem já não é novidade, afinal vivemos e sentimos diretamente o efeito de tal teoria. O que nos passa em branco, por vezes por mera distração, é o impacto dessa extensão em nossa vida – e os outros elementos que complementam, ou trabalham juntos, com tal característica. Inclua nisso a decoração da sua casa ou mesmo a organização da sua mesa de trabalho. Sua forma de adornar, organizar e levar a sua vida é um complemento do que você é e, também, da sua relação  com o meio no qual você está inserido. Inclua, aí, grupos ou cidades, estruturas que moldam ou mesmo ditam as regras e orientações para o nosso dia-a-dia.

Quantas foram as vezes que nos sentimos emocionalmente mais perto ou distantes de certos locais? Em viagens, percebemos a possibilidade de morar naquele local, de viver com aquelas pessoas, ou então nos pegamos com aquele desejo urgente de voltar para casa, com saudade daquele ambiente que respira como você e que lhe faz sentir de fato bem. Isso acontece porque comunicamos o que gostamos e somos o que vivemos. Mais do que pensamentos lógicos, fáceis de entender após um primeiro momento, trata-se de luz que por vezes passa despercebida e serve como dúvida permanente sobre a razão ou motivação para nossas escolhas. Pelo desejo de pertencimento, buscamos o que realmente combina com nossa essência e com nossa personalidade, e somos permanentemente abalados (de forma positiva e negativa) por tal interação.

Você decide por um tecido tal, mas não sabe porque gosta dele. Talvez a textura, o peso, talvez a cor… a obrigação de vestir, já lembrada aqui, faz com que busquemos algo que nos complemente e que está de acordo com as regras básicas do mundo que vivemos. Essa associação de escolhas e decisões possui forte peso na nossa vida e pode ser fator de maior satisfação e felicidade quando sabemos exatamente que as ligações existente são as que queremos e que tudo o que estamos vivendo e sentindo é o que precisamos.

Quase sempre a busca por serviços de consultoria de estilo entra como uma ferramenta para alinhar estes desejos, descobrir detalhes que, por uma razão ou outra, ficaram perdidos no tempo e no espaço.

Assim, mostrar-se nu ao mundo não é uma escolha de vida. Desde o tempo em que deixamos de viver em tribos, e abandonamos a limpa e simples relação de total interdependência e ligação entre membros, passamos a agir segundo  novas normas que fizeram com que nossas expressões fossem caladas, silenciadas em prol de uma tal evolução coletiva. De repente, o corpo dizia muito mais do que deveria ser dito e cobrir a essência, em um jogo de crescente “falsidade”, passou a ser regra. No entanto, voltamos a interagir como em aldeias e estamos diretamente ligados pela facilidade da informação, que caminha rapidamente pela rede que faz de todo o mundo um só. Ainda assim, mesmo com nossa carência de dependência, exemplificada pela necessidade apresentada pelo homem de contar mais sobre sua vida, intimidade e privacidade, continuamos encontrando nas roupas e em todas as formas de adorno, e ostentação, uma maneira de burlar expressões que continuam sendo apresentadas com certa falsidade.

Se o complemento do corpo, como roupa, é tão poderoso, ele merece tal cuidado, mesmo para que a mensagem transmitida seja o mais pura possível, capaz de valorizar o que realmente somos, queremos e acreditamos ser capazes de ser. A roupa é uma extensão nossa; por sua vez o nosso grupo, nosso conjunto, é uma extensão de todos nós.

Hoje, na aldeia global em que vivemos, somos inspirados e afetados por referências diversas, com a facilidade de um clique. Ferramentas como Pinterest, Tumblr, além de blogs e twitter, nos bombardeiam constantemente com modelos de beleza e estilo que nos inspiram facilmente. São pessoas que nunca estiveram no nosso grupo direto, pessoas com as quais nunca iremos conversar (muito provavelmente), mas ainda assim elas estão perto de nós e, como num ciclo constante, nós estamos perto delas. Ligados pela rede, somos levados pela interação da modernidade que diminui distâncias culturais, quase que ao ponto de eliminar características puras de um determinado grupo. Bom, ou ruim, é o reflexo da atualidade que massifica e estimula a admiração por certos deuses, olimpianos da era digital que são assimilados como referência.

Então, você diz… e eu com isso? Seria ao menos útil, e por essa razão bom, ter noção do jogo no qual estamos envolvidos. Na brincadeira de consumo, tendência, compras e posses, ser, e fortalecer o seu estilo e a sua identidade (como ser único e como parte do grupo) é sair na frente, sem acabar como uma vítima de um jogo de interesses. Contar sua história, deixar seu recado, mostrar do que você é capaz de ser. Se revelar como mais do que uma roupa, lembrando que o corpo é a extensão dos adornos e estes trabalham para nós, não o contrário – ainda que fortemente poderosos e capazes de exercer sua profunda manipulação

As frases são de Marshall McLuhan, retiradas do livro “Os Meios de Comunicação – como extensões do homem”.

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30 agosto 2011
Olimpianas da era digital

Copiadas, invejadas e celebradas as blogueiras são olimpianas da era digital, estabelecendo um novo estilo de adoração.

“No encontro do ímpeto do imaginário para o real e do real para o imaginário, situam-se as vedetes da grande imprensa, os olimpianos modernos.”

Nos blogs e blogueiros de moda, estilo e comportamento o papel da divulgação chega a ser desnecessário, pois a fórmula de sucesso, dos looks à registros de compras, viagens e hábitos, está nessa sintonia entre real e imaginário. As blogueiras estabelecem a substância humana necessária à cultura de massa, naturalmente apresentada como um presente que é oferecido aos que seguem, literalmente, essas bloguers em seus caminhos. Blogueiras de moda, de todo o mundo, são mais que estrelas – são olimpianas.

“Os novos olimpianos são, simultaneamente, magnetizados no imaginário e no real, simultâneamente, ideais inimitáveis e modelos imitáveis; sua dupla natureza é análoga à dupla natureza teológica do horói-deus da religião cristã: olimpianas e olimpianos são sôbre-humanos no papel que eles encarnam, humanos na existência privada que eles levam. A imprensa de massa, ao mesmo tempo que investe os olimpianos de um papel mitológico, mergulha em suas vidas privadas a fim de extrair delas a substância humana que permite a identificação.”

O que facilita o efeito olimpiano das blogueiras (e blogueiros) de moda é o comportamento estabelecido que entrega, de mãos beijadas, de detalhes íntimos de suas vidas privadas. Entre explicações e jusficativas, conversas e revelações, a ligação que se estreita, dia após dia, em sistema de total cumplicidade e fidelidade. A interação via comentários e tweets afina essa sintonia, essa tal amizade, que como resposta abre as portas para uma rede de comércio e negócios da qual as empresas bebem, e se aproveitam, pela credibilidade que essas meninas possuem – e por serem grandes formadoras de opinião. Assim, as blogueiras podem ser vistas como melhores (no quesito utilidade) que as celebridades, pois se banham de uma suposta legimitidade ou mesmo autonomia de escolhas e seleções. A opinião é presente, permanente, mas por vezes a assinatura tem um preço… que ninguém precisa ou deve conhecer.

No prime network de blogs de moda do Brasil, Fashion Hits – F*Hits, um exemplo claro desse processo que reúne os maiores olimpianos da blogosfera brasileira, alguns com impacto e importância no contexto mundial. Por vezes, o sentimento de admiração se mistura à vício; em outros momentos, o processo de dependência leva a necessidade de verificar, dia após dia, o que acontecem com essas pessoas. São amadas e, por consequência, odiadas em um caminho que também chama sentimentos de inveja e ódio.

“Os olimpianos, por meio de sua dupla natureza, divina e humana, efetuam a circulação permanente entre o mundo da projeção e o mundo da identificação. (…) Eles realizam os fantasmas que os mortais não podem realizar, mas chamam os mortais para realizar o imaginário. “

São as blogueiras que realizam os sonhos que muitos gostaria de realizar, que conhecem lugares, destinos e festas que tantos desejavam. Ganham presentes, são convidadas para todos os lançamentos e vivem uma vida que abraça em todos os sentidos o consumismo e o mundo das futilidades – de maneira alguma pejorativo. São elas que conseguiram ser admiradas por muitos, que colecioam milhares de seguidores e dezenas de milhares de acessos diários. São populares, como as meninas gostariam de ser há uma década atrás no colégio. São olimpianas, divinas pela característica de estarem sempre em um posto superior, acima do padrão, e humanas por serem as garotas que nós poderíamos ser.

Importante, acima de tudo, reconhecer que essas características nada mais são que um fruto do tempo, algo da nossa era. Não há novidades, a não ser pelo contato direto com o mundo virtual e com as teconologias. Essa história, hoje tão discutida, sempre existiu com outros atores. Toda sociedade busca seus ídolos, suas referências, como se fosse impossível seguir algum caminho que não seja indicado por algo, ao menos aparentemente, superior e mais repleto de sabedoria. Cabe pensar nos olimpianos, ou nas blogueiras olimpianas da era digital, como os símbolos da atual industria cultural que, já instaurada e firme em seu caminho, ainda deixa suas manchas na busca pelo constante e permanete lucro.

As frases são trêchos de um texto de Edgar Morin, em Cultura de Massa no Século XX.

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