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04 fevereiro 2016
Entre emocionar-se e sentir

Foi-se o tempo da razão. Aquele do viver sem sentir, imerso num mar de explicações técnicas e teóricas. Hoje, o sentimento está em cada detalhe do cotidiano, explorado de todas as maneiras. Nesse tempo da experiência vendem-se emoções previamente detalhadas, direcionando quais devem ser as conclusões após determinado uso ou aplicação.

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Não compramos mais o produto, mas sim a tal emoção revelada. O resultado, com tal, é a insatisfação constante pela inconsistência das vibrações, que tendem a não suprir de fato carências latentes no íntimo de cada um. Nisso, há uma busca incessante por explorar um volume máximo e extremo de movimentos da mente, cada vez mais profundos e confusos por não serem, de fato, puros. Não há completa autonomia nas sensações. “O culto da emoção pode ser a melhor ou a pior das coisas e, muitas vezes, o que vemos hoje é o espetáculo do pior, reduzido a uma caça de sensações fortes, ele altera nossa sensibilidade e nos arrasta para uma forma insidiosa de barbárie”, explica Michel Lacroix.

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A cada dia, a cada semana, são tantas as descobertas, as compras, as risadas e as vitórias que nem se sabe mais, de fato, em quais momentos a felicidade é legítima. Perde-se o prazer da espera, a gana pela conquista, o sonho antes construído que hoje se realiza facilmente nos parcelamentos dos cartões de crédito. Ficou no passado, para muitos, aquela sensação boa de contar noites esperando por um momento especial… acontece tanto em tão pouco tempo. Os prazeres incríveis acabam brotando em momentos banais, numa conversa no fim de tarde com os amigos de sempre, num lanche descontraído após uma noite não tão boa ou mesmo numa manhã de mal humor com um ou outro bom dia sincero entre aqueles que realmente se amam.
O que importa, no fim, não é abraçar toda a felicidade que se pode comprar; o que importa é não perder a capacidade de se emocionar (de fato!), sem precisar pagar por emoções que chegam pelo correio embaladas em caixas grandes, lacradas, com endereço para devolução.

Nesse sentido, lembramos que vibrar com coisas simples deixou de ser recomendado e, por vezes, até aceitado. Observam com olhar de crítica aqueles que derramam lágrimas com um cena de filme, ou mesmo aqueles que suspiram com um desapontamento ou ficam com raiva ao serem injustiçados. As emoções mais puras foram deixadas de lado e em seu lugar entraram momentos de explosão. Devemos ser fortes, capazes, duros, certeiros. Somos orientados a não ter medo, sempre com pulso firme e olhar marcado. Guardamos sentimentos, esquecemos em nosso peito (no fundo de nossa alma) emoções que crescem e se transformam em mágoa, destruindo um pouco da serenidade que herdamos dos tempos de nossa infância, talvez ainda no berço. Somos criticados por não sentir, mas somos, também, punidos por uma escolha contrária. Se nos guardamos, se nos fechamos, somos vistos como vazios, introspectivos, como se o silêncio e a observação valessem menos que a euforia e a agitação temporária. O que mais vale é ser notado.

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Daí que gritar, falar alto, ser espontâneo, ou popular (da-lhe Instagram e Snapchat), é pintado como emoção, como na verdade pode ser tantas outras coisas… Como lembra Michel Lacroix: “nossos contemporâneos emocionam-se muito, mas já não sabem sentir”. E nasce uma tendência para cada tipo de emoção. Vez ou outra surge a forma de sentir da vez: que combina com o comercial que passa na teve ou que circula nas redes sociais. Ou vira regra admirar o pôr do sol, ou fotografar a lua em dias específicos – quando todos apontam seus celulares para o céu e buscam fazer uma foto de algo que pode ser perfeitamente eternizado na memória com um olhar atento, de pura contemplação.

Negar as emoções, e julgar os outros que se emocionam com o simples fato da contemplação, é não compreender quantas são as formas de viver e o quanto podemos encontrar, entre as muitas, uma que seja mais compatível com ambições de vida e desejos para o futuro. Com a cabeça erguida podemos ter as rédeas da própria emoção. São escolhas que geram um futuro mais pleno, são decisões que acalentam nos momentos difíceis e são detalhes que abrem portas e preparam o corpo para viver da melhor forma que há para viver.

Sentir, por inteiro, é uma escolha. Lágrimas, sorrisos, gritos, introspecção e silêncio, combinados na sua própria receita, são a mistura de quem experimenta a vida plena… a combinação de quem se valoriza por inteiro e sabe que em cada estímulo da alma há o reflexo de uma veia que pulsa e de um coração que bate por si só, com as pulsações naturais do dia-a-dia.

Compilação de textos originalmente publicados em 24 de outubro de 2010 e 4 de janeiro de 2012 com citações do livro ‘O culto da emoção’, de Michel Lacroix.

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