Conversinha Fashion » Michael J. Sandel
16 março 2016
O que o dinheiro não compra

Em tempos de camarotização, onde tudo é ponto de venda, corremos o risco de perder, até mesmo, boas possibilidades de interação

“Quanto maior o número de coisas que o dinheiro compra, menor o número de oportunidades para que as pessoas de diferentes estratos sociais se encontrem.” Se as coisas tem um preço, e tal preço é alto, as distâncias entre grupos sociais naturalmente crescem e, assim, é alimentado um ciclo que separa, insistentemente, povos e pessoas. Por mais que para alguns isso seja o esperado, ou até mesmo sonhado, tal afastamento gera efeitos drásticos e irreversíveis, de impacto profundo mas, por certas vezes, invisível. Se você se considera superior, e quer distância daqueles, ou daquilo, que não condiz com o seu suposto ‘nível’, não sabe a oportunidade que está perdendo de ampliar seus horizontes, viver a vida de forma plena e entender que quando há preço para tudo, os reais sentimentos e desejos deixam de ter significado e passam a ser meros detalhes de uma vida de muitas posses, muitos bens, mas pouca paz e felicidade e nenhuma sinceridade.

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 As separações crescem e ganham novas formas, se multiplicam no trânsito, nas festas, nos locais de morar, estudar ou até mesmo caminhar. Para os que podem pagar um pouco a mais, há sempre uma solução para se ver livre do infortúnio de se deparar com uma realidade que não querem encarar. As desculpas são sempre as mesmas e incluem o batido discurso de que o trabalho é muito e deve ser recompensado com algum tipo de exclusividade. “O importante é que pessoas de contextos e posições sociais diferentes encontrem-se e convivam na vida cotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e respeitar as diferenças ao cuidar do bem comum.” No entanto, seria tão essencial assim, como dizem, se manter próximo aos que fazem parte do seu convívio e ignorar os demais?! Há de se pensar, antes de tudo, que em uma sociedade global, as ações de cada um geram reações de impacto geral, assim a interação pode não acontecer de maneira direta, mas existe – ainda que superficialmente. Mais do que isso, é importante entender e perceber no dia-a-dia como as relações ganham também forma de produto para quem vive cifrões e, com isso, se multiplicam os ciclos de interesse nos quais até mesmo as amizades e os relacionamento pessoais – os mais básicos e primordiais – são alimentados por trocas financeiras sob a forma de presentes ou convites. Se você se isola, e tudo compra, estará se entregando a um mundo que luta para que tudo tenha um preço, mas que clama por pureza nas facetas mais básicas da vida, porque sente falta de sorrisos, de cumplicidade e de paz.

Trechos retirados do livro O que o dinheiro não compra, de Michael J. Sandel

Texto publicado, originalmente, em 13 de novembro de 2012

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