Conversinha Fashion » Viés do Saber
20 março 2016
Se libertar e evoluir

“Se é verdade que nosso organismo traz em si células-tronco indiferenciadas capazes, como as células embrionárias, de criar todos os diversos órgãos de nosso ser, a humanidade também possui em si as virtudes genéricas que permitem criações novas. Se é verdade que essas virtudes estão adormecidas, inibidas sob as especializações e e a rigidez de nossas sociedades, então as crises generalizadas que as abalam e abalam o planeta poderiam permitir a metamorfose que se tornou algo vital. É por isso que não devemos mais continuar na rota do desenvolvimento. Precisamos mudar de caminho, precisamos de um novo começo”.

A Crise da Modernidade – Rumo ao Abismo? Edgar Morin

As palavras de Edgar Morin são marcantes, vão direto ao ponto. Estamos, de certa forma, amarrados as grandes evoluções de nosso tempo e, em meio a tantas conquistas, sentimos que não conseguimos ir além. Talvez nem bem sabemos o que queremos. Isso não vale apenas para os notáveis passos do desenvolvimento, para grandes descobertas, para um mundo de conquistas mil. Isso vale para cada um de nós, para o que somos e o que queremos ser. Como diz Morin em um de seus textos, somos capazes de criar e recriar; temos em nós, em nossa essência, essa chance de começar de novo e de, assim, sair de onde estamos para ir para outro lugar. O tal do desenvolvimento pode nos amarrar a um certo caminho onde ficamos viciados a olhar apenas para um determinado ponto, presos em uma rota final que é tida como a ideial. Porém, na encruzilhada de informações, nas rotas diversas que moldam nossos caminhos, podemos optar por uma outra saída, escapando do congestionamento que faz com que todos nós tenhamos a sensação de que precisamos de uma mesma e única coisa para encontrar a felicidade.

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E, assim, o mundo pode estar se perdendo em uma ideia fixa de que o futuro, a prosperidade, estará nas grandes tecnologias, na dominação total da medicina. Só que, na verdade, já é possível perceber uma busca por outros desejos, quando vemos a espiritualidade crescendo, quando sentimos que o consumo exagerado já não é mais o único tema abordado pela mídia – pelos comerciais. Vemos algo um pouco diferente, queremos nos emocionar, queremos voltar a ter sensações puras e íntimas que deixamos escapar por entre os dedos na busca por algo de concreto e teoricamente certo, assinado por especialistas e doutores.

Na ânsia pela segurança, descobrimos que temos mais do que precisamos e continuamos sem saber o que será do dia de amanha. Sentimos medo, ficamos tristes, estamos sozinhos… esse é o tal mas estar da pós-modernidade do qual tanto fala Zygmunt Bauman… Isso é um fato, uma realidade. Seremos eternamente incapazes de saber o que será do futuro, mas podemos experimentar novos caminhos e, assim, quebrar um pouco da rigidez de nosso tempo. Podemos ser otimistas. Vale ser otimista!

E na moda, onde isso entra? Entra na história de sair da zona de conforto, de saber que para conquistar o novo é preciso tentar algo de diferente. Já não há mais certo ou errado, há adequado e inadequado. Temos um mundo de possibilidades e ainda assim estamos insatisfeitos com nossa imagem?! Vamos mudar essa história, em busca de autoestima elevada e satisfação pessoal. Vamos parar de postergar o bem estar. O sistema da moda está repleto de cenários e podemos tirar proveito dessas muitas chances que as marcas nos oferecem. Talvez a confiança com nossa imagem está nesse novo caminho, nesse tal novo começo falado por Morin. Nossas virtudes visuais, ou nossas capacidades, não precisam mais estar adormecidas. Vamos nos permitir uma metamorfose, vamos abraçar a felicidade. Sonho?! Talvez sim, talvez não.

Texto publicado, originalmente, em 23 de fevereiro de 2012.

30 agosto 2011
Olimpianas da era digital

Copiadas, invejadas e celebradas as blogueiras são olimpianas da era digital, estabelecendo um novo estilo de adoração.

“No encontro do ímpeto do imaginário para o real e do real para o imaginário, situam-se as vedetes da grande imprensa, os olimpianos modernos.”

Nos blogs e blogueiros de moda, estilo e comportamento o papel da divulgação chega a ser desnecessário, pois a fórmula de sucesso, dos looks à registros de compras, viagens e hábitos, está nessa sintonia entre real e imaginário. As blogueiras estabelecem a substância humana necessária à cultura de massa, naturalmente apresentada como um presente que é oferecido aos que seguem, literalmente, essas bloguers em seus caminhos. Blogueiras de moda, de todo o mundo, são mais que estrelas – são olimpianas.

“Os novos olimpianos são, simultaneamente, magnetizados no imaginário e no real, simultâneamente, ideais inimitáveis e modelos imitáveis; sua dupla natureza é análoga à dupla natureza teológica do horói-deus da religião cristã: olimpianas e olimpianos são sôbre-humanos no papel que eles encarnam, humanos na existência privada que eles levam. A imprensa de massa, ao mesmo tempo que investe os olimpianos de um papel mitológico, mergulha em suas vidas privadas a fim de extrair delas a substância humana que permite a identificação.”

O que facilita o efeito olimpiano das blogueiras (e blogueiros) de moda é o comportamento estabelecido que entrega, de mãos beijadas, de detalhes íntimos de suas vidas privadas. Entre explicações e jusficativas, conversas e revelações, a ligação que se estreita, dia após dia, em sistema de total cumplicidade e fidelidade. A interação via comentários e tweets afina essa sintonia, essa tal amizade, que como resposta abre as portas para uma rede de comércio e negócios da qual as empresas bebem, e se aproveitam, pela credibilidade que essas meninas possuem – e por serem grandes formadoras de opinião. Assim, as blogueiras podem ser vistas como melhores (no quesito utilidade) que as celebridades, pois se banham de uma suposta legimitidade ou mesmo autonomia de escolhas e seleções. A opinião é presente, permanente, mas por vezes a assinatura tem um preço… que ninguém precisa ou deve conhecer.

No prime network de blogs de moda do Brasil, Fashion Hits – F*Hits, um exemplo claro desse processo que reúne os maiores olimpianos da blogosfera brasileira, alguns com impacto e importância no contexto mundial. Por vezes, o sentimento de admiração se mistura à vício; em outros momentos, o processo de dependência leva a necessidade de verificar, dia após dia, o que acontecem com essas pessoas. São amadas e, por consequência, odiadas em um caminho que também chama sentimentos de inveja e ódio.

“Os olimpianos, por meio de sua dupla natureza, divina e humana, efetuam a circulação permanente entre o mundo da projeção e o mundo da identificação. (…) Eles realizam os fantasmas que os mortais não podem realizar, mas chamam os mortais para realizar o imaginário. “

São as blogueiras que realizam os sonhos que muitos gostaria de realizar, que conhecem lugares, destinos e festas que tantos desejavam. Ganham presentes, são convidadas para todos os lançamentos e vivem uma vida que abraça em todos os sentidos o consumismo e o mundo das futilidades – de maneira alguma pejorativo. São elas que conseguiram ser admiradas por muitos, que colecioam milhares de seguidores e dezenas de milhares de acessos diários. São populares, como as meninas gostariam de ser há uma década atrás no colégio. São olimpianas, divinas pela característica de estarem sempre em um posto superior, acima do padrão, e humanas por serem as garotas que nós poderíamos ser.

Importante, acima de tudo, reconhecer que essas características nada mais são que um fruto do tempo, algo da nossa era. Não há novidades, a não ser pelo contato direto com o mundo virtual e com as teconologias. Essa história, hoje tão discutida, sempre existiu com outros atores. Toda sociedade busca seus ídolos, suas referências, como se fosse impossível seguir algum caminho que não seja indicado por algo, ao menos aparentemente, superior e mais repleto de sabedoria. Cabe pensar nos olimpianos, ou nas blogueiras olimpianas da era digital, como os símbolos da atual industria cultural que, já instaurada e firme em seu caminho, ainda deixa suas manchas na busca pelo constante e permanete lucro.

As frases são trêchos de um texto de Edgar Morin, em Cultura de Massa no Século XX.

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15 outubro 2010
A tendência e o corpo

Uma tendência é uma ideia, pensada e fabricada dentro das referências de uma temporada. Nada é colocado nas araras por acaso e são raras as marcas que trabalham fora dessa concepção de pensamento pronto; o conceito, o tema, é inserido quase sempre no fim da história. A sincronia de detalhes, de cores e formas não sai do acaso, mas sim de um estudo prévio do que estará em voga numa determinada época – e essa informação pode ser comprada em bureaus de estilo (pense em WGSN). O que importa para nós, como consumidores, é que recebemos um leque de opções que estarão disponíveis para nosso consumo; para vestir, e comprar, devemos trabalhar com essa oferta. Claro, você pode pensar em costureiras e roupas sob medida, mas como produto pronto (como prêt-à-porter), há uma massificação do que é ofertado. Hoje, por exemplo, vemos a exaustão o militarismo, o navy, o liberty… tudo isso repetido e reproduzido dentro das características próprias de cada marca – seja num comprimento mais encurtado ou reproduzido em tecidos de alta qualidade.

A questão é que seja lá qual for a tendência ela interage com pessoas vivas, cheias de vontades e opiniões; para isso é preciso deixar de lado o pensamento de ordem e abraçar a ideia de uma orientação. Manipular uma tendência, brincar com a oferta, fortalece a criação de sua identidade. A moda não é estática, assim como o consumidor também não é. Tudo muda a todo tempo e nesse jogo as chances de se obter sucesso cresce para quem se coloca em primeiro plano, bem a frente do que chega pronto e é assimilado sob a forma de imposição.

É preciso pensar que vestir o corpo é dar forma, cor, vida a alma e a tudo o que somos de forma não palpável. Somos pensamentos, sentimentos, emoções, crenças e tudo isso é materializado pelo que usamos. A vontade de comunicar, de conversar e dialogar (não só via palavras) é natural de todo ser vivo e olha só que chance maravilhosa é essa de poder enviar mensagens sem precisar soltar a voz. A fala, no caso de contato visual, chega bem depois da imagem… é o impacto do contato visual que gera aquela primeira impressão já cheia de conclusões. Com isso o corpo, em sua forma interiorizada, ganha ainda vida de maneira plena quando pensamos nos gestos e anexos.

A partir disso abre-se o leque para um mar de pensamentos ligados ao corpo, a tendência e a moda. Essas ideias serão apresentadas aos poucos, num momento bem pertinente – de onde virão também tendências futuras. Acontece que o tema do Minas Trend Preview, edição outono inverno 2011 (oi?!), será… o Grupo Corpo, numa total onda do corpo em si. Lembra que já relacionamos expressão, imagem, estilo e dança nesse outro post?! Pois bem. Essa relação entre o corpo, o Grupo Corpo e a moda será exposta no evento que trás a temática como homenagem, mas também como uma lembrança para a expressão pessoal em forma de identidade e estilo pessoal. E tudo isso vem junto desse processo de elevação da auto estima pela qual conseguimos ganhar qualidade de vida (mesmo!) e satisfação não pelo resultado de imagem por si mas também, e principalmente, pela capacidade de comunicar e expor sentimentos de forma rica e plena.

15 agosto 2010
Sobre ser mediano…

Para refletir e começar a semana…

“A diferença entre as estrelas e os medianos é que as estrelas não se contentam com a média. (…) Se você se contenta com a média, paciência. Mas há um preço para isso. Sabe qual é? Ter salário médio, visibilidade média, reconhecimento médio, reputação média, bônus médio, uma carreira médio, empresa média, vida média. E o pior: sua segurança também será média. Porque, acredite, os médios nunca estão seguros em lugar algum. Sempre pode surgir uma estrela no seu segmento, e aí sua medianidade ficará exposta. Cuide-se.”

Trecho do livro de Arthur Bender, Personal Branding – Construindo sua marca pessoal.

07 junho 2010
Cadeira cativa para a imagem

Nunca se falou tanto sobre a importância da imagem no campo eleitoral como tem sido discutido ultimamente. Talvez a pouca credibilidade de alguns muitos candidatos faça com que questões antes secundárias sejam colocadas em voga, ou então esse efeito seja um reflexo natural das mudanças de visão e comportamento estabelecidas com o passar do tempo. Imagem sempre foi questão valorizada, mas ultimamente isso tem sido algo discutido abertamente e não mais um tabu visto como futilidade – como acontecia até pouco tempo atrás. Que pessoa tida como séria ousaria admitir que necessitava de um auxilio para se vestir bem?! Sabemos como a história era. Hoje a aquisição de serviços, gerais, mostra o perfil de uma pessoa completa que se preocupa com todos os mínimos detalhes capazes de valorizar seus pontos fortes e fortalecer sua personalidade. Não pense em fraqueza – pense em mente aberta, daquele que sabe que não há como nascer carregando todos os conhecimentos do mundo… mas é possível aprender e, dessa forma, melhorar.

Imagem é algo com cadeira cativa na lista de prioridades de uma pessoa pública e enquanto muito se fala do assunto, durante a corrida eleitoral, por vezes se esquece de colocar em pauta a importância do discurso, do comportamento, dos pequenos detalhes que estruturam um grande e forte candidato. Pense em um terno alinhado, um vestido bem cortado, linhas firmes e limpas que abrem as portas para palavras igualmente fortes e impactantes… enquanto… um olhar torto, um aperto de mão frouxo, um comentário preconceituoso ou uma atitude infantil geram o tão temido desastre. São pequenos deslizes que fazem com que a imagem escorra, sobrando uma forte mal impressão de uma pessoa que não convence como real, assim como um pacote de presente bonito que quando aberto mostra não ter conteúdo – uma caixinha vazia.

Na outra mão um presente mal embrulhado, jogado aos cantos, presenteando pessoas erradas (que pouco se interessam por aquele mimo em si) gera o mesmo efeito decepcionante. Impossível não perceber a complexidade do processo. Não se pode falhar por aqui… mas muito menos se descuidar por ali. Dai a razão pela qual a política está cada vez mais atrelada a serviços de aprimoramento visual, além de questões gerais ligadas ao marketing pessoal (algo um pouco mais comum e antigo nesse meio). Os bons candidatos não podem perder pontos nos detalhes e os ainda não tão fortes querem se garantir através do fortalecimento pelo impacto da aparência. No fim, a imagem se mostra sempre um grande ponto de preocupação… mais do que nunca algo impossível de ser ignorado.

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