20 fevereiro 2013
Um casaco, e só

Uma reflexão sobre uma peça essencial para os que enfrentam dias realmente frios

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Ao viajar para um lugar frio, eu digo muito frio, tudo o que você precisa (além do básico, claro) é de um bom casaco. Não dois, muito menos três… apenas um. Os extras costumam ser levados por mera vaidade, pelos que não precisam ser preocupar com o peso da bagagem ou que não procuram facilidade.

“(…) apesar de toda nossa crítica sobre o materialismo da vida moderna, a atenção ao material é precisamente aquilo que está ausente. Rodeados como estamos por uma extraordinária abundância de materiais, seu valor deve ser incessantemente desvalorizado e substituído”.

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Um bom casaco combina com tudo. É neutro, básico, e, acima de tudo, protege do frio e do vento. Há de se pensar que durante muito tempo, um casaco foi considerado um item de luxo, uma peça que era passada de pai para filho, considerada uma herança. Para nós, principalmente, que moramos em um país essencialmente quente, colecionar casacos é uma mania, uma frescurinha de que gostaria de viver em cidades frias, geladas. Mas, na hora de viajar, o peso acumulado de casacos é loucura e a real utilidade de lotar a mala com peças de função semelhante deve ser repensada.

A lembrança do livro “O Casaco de Marx”, de Peter Stallybrass.

“Ao pensar nas roupas como modas passageiras, nós expressamos apenas uma meia-verdade. Os corpos vêm e vão: as roupas que receberam esses corpos sobrevivem.”  

Se vestir fosse um ato de necessidade, e não uma expressão de estilo ou elemento de identificação social, nossos hábitos de consumo e o próprio ato do vestir seriam completamente diferentes. Precisaríamos, de fato, de apenas um casaco para os tempos de frio. E como seria legal se, assim como antes, as peças passassem de um para o outro, feitas em materiais de alta qualidade, reformadas de tempo em tempo, carregadas de emoções e história.

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13 novembro 2012
O que o dinheiro não compra

Em tempos de camarotização, onde tudo é ponto de venda, corremos o risco de perder, até mesmo, boas possibilidades de interação

“Quanto maior o número de coisas que o dinheiro compra, menor o número de oportunidades para que as pessoas de diferentes estratos sociais se encontrem.” Se as coisas tem um preço, e tal preço é alto, as distâncias entre grupos sociais naturalmente crescem e, assim, é alimentado um ciclo que separa, insistentemente, povos e pessoas. Por mais que para alguns isso seja o esperado, ou até mesmo sonhado, tal afastamento gera efeitos drásticos e irreversíveis, de impacto profundo mas, por certas vezes, invisível. Se você se considera superior, e quer distância daqueles, ou daquilo, que não condiz com o seu suposto ‘nível’, não sabe a oportunidade que está perdendo de ampliar seus horizontes, viver a vida de forma plena e entender que quando há preço para tudo, os reais sentimentos e desejos deixam de ter significado e passam a ser meros detalhes de uma vida de muitas posses, muitos bens, mas pouca paz e felicidade e nenhuma sinceridade.


As separações crescem e ganham novas formas, se multiplicam no trânsito, nas festas, nos locais de morar, estudar ou até mesmo caminhar. Para os que podem pagar um pouco a mais, há sempre uma solução para se ver livre do infortúnio de se deparar com uma realidade que não querem encarar. As desculpas são sempre as mesmas e incluem o batido discurso de que o trabalho é muito e deve ser recompensado com algum tipo de exclusividade. “O importante é que pessoas de contextos e posições sociais diferentes encontrem-se e convivam na vida cotidiana, pois é assim que aprendemos a negociar e respeitar as diferenças ao cuidar do bem comum.” No entanto, seria tão essencial assim, como dizem, se manter próximo aos que fazem parte do seu convívio e ignorar os demais?! Há de se pensar, antes de tudo, que em uma sociedade global, as ações de cada um geram reações de impacto geral, assim a interação pode não acontecer de maneira direta, mas existe – ainda que superficialmente. Mais do que isso, é importante entender e perceber no dia-a-dia como as relações ganham também forma de produto para quem vive cifrões e, com isso, se multiplicam os ciclos de interesse nos quais até mesmo as amizades e os relacionamento pessoais – os mais básicos e primordiais – são alimentados por trocas financeiras sob a forma de presentes ou convites. Se você se isola, e tudo compra, estará se entregando a um mundo que luta para que tudo tenha um preço, mas que clama por pureza nas facetas mais básicas da vida, porque sente falta de sorrisos, de cumplicidade e de paz.

Trechos retirados do livro O que o dinheiro não compra, de Michael J. Sandel

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14 julho 2012
Como um vírus

Ser bom se transformou em exceção, virou raridade em um mundo pesado, com caras fechadas, semblantes tristes, olhares perdidos. De repente, um mero gesto de educação causa espanto, e tais ações prestativas acabando sendo recebidas com olhares desconfiados, com o medo de uma sociedade que vive permanentemente em pânico. Motivos não faltam, impossível negar, mas é igualmente inegável que este é um caminho sombrio – o caminho do medo, no qual podemos acabar isolados em casa, fechados em um lugar no qual nos sentimos supostamente seguros. E o ódio que se espalha alimenta ainda mais ódio, enquanto a única salvação possível para tal mal é correr para o caminho oposto e se agarrar no amor.

Citação retirada do livro de Giorgio Faletti, “Eu sou Deus”

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12 junho 2012
Todo dia é dia de moda

Na vida real, toda semana é semana de moda, e todo dia é dia de escolher o que usar e como cobrir a nudez

Existem uma lacuna, ou um abismo, entre as semanas de moda e as pessoas reais. O consumidor final, aquele que vai as lojas e consume as tendências de forma inconsciente pode até saber da existência de eventos como o Fashion Rio e a SPFW, mas essa informação chega pelas notícias veiculadas na TV, pelas notinhas que aparecem nos grandes portais ou mesmo pelos flashes em sites de fofoca que mostram celebridades povoando a primeira fila de desfiles. E engana-se quem pensa que toda mulher, ou todo consumidor, é um ávido leitor de blogs de moda. As pessoas podem sim chegar a esse universo em algum instante da vida, mas quase sempre o acesso faz parte de um momento isolado da rotina ou de alguns minutos em meio ao trabalho para arejar os pensamentos e sair da vida real. É um sopro de futilidade – uma diversão, ou uma busca por informação. Pessoas reais tem muito com o que se ocupar e não vivem de moda, ou para a moda… ainda bem.

As semanas de moda estão por ai, apresentando tendências, preparando o mercado para o que está por vir, gerando um burburinho quanto as cores, formas e texturas da nova estação, mas não são a realidade do consumidor padrão. Dito isso, voltamos para o mundo real, de pessoas reais, que tem nas roupas, na compra e no ato diário do vestir, uma parte de algo que é bem mais amplo. Por isso que viver de consultoria de estilo é voltar para um universo no qual a roupa faz bem mais sentido, no qual cada peça possui bem mais importância do que tem ali nas araras, porque elas são uma extensão da personalidade de alguém a partir do momento que cobrem a nudez. As roupas vestem a personalidade de cada um, servem como elemento de decoração para sonhos, para desejos, para vontades; as roupas, vestidas (!) são muito mais intensas do que dobradas ou espalhadas pelas lojas, enquanto ainda são apenas um produto, prestes a ser trocado por moeda e inseridos em um mundo “real”.

Nada mal, então, se apaixonar pela moda já na etapa final de seu ciclo, se encantar pelas roupas quando consumidas, sendo aceitas (ou não) pelo mercado. Nada mal não se empolgar com os desfiles, com as peças conceito, com o momento de divulgação de algo que estará disponível algum tempo depois para o consumidor final. A moda, como história e representação de escolhas sociais em meio a muitas possibilidades, é incrível! É essa que traduz a história de um tempo, é essa, já aceita e usada, que será transformada em história… porque moda como desfile é parte da indústria; moda no corpo, explodindo de significado, é parte da nossa vida.

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08 junho 2012
As mulheres e a moda

Moda é fetiche, é sedução e atração; moda é hoje uma voz para as mulheres que sabem fazer uso de tal

Que relação estranha é essa que liga as mulheres e a moda?! Que jogo é esse que faz com que as tendências e novidades sejam tão procuradas e perseguidas essencialmente pelo público feminino?! É difícil mas não impossível entender o que acontece nesse relacionamento de altos e baixos; porque ao mesmo tempo em que amamos a ideia do consumo de moda temos aquela sensação de vazio que nos mostra que existem outras coisas tão ou mais importantes do que se vestir bem.

A moda se alimenta do fetiche, desse jogo do conquistar o que não se possui ou mesmo de desejar algo que não será de fácil aquisição. A moda é o próprio fetiche com seu poder extremo de sedução e atração, exercido não apenas pelas incríveis ferramentas da publicidade, mas também por ser ela o que ela é. Ela possui poderes, desconhecidos mas intrigantes que mexem com o íntimo de cada um e nos dão os alicerces para sermos, talvez por um dia ou por toda uma vida, uma pessoa que simplesmente sonhamos em ser. Não se trata de enganar a plateia mas sim de satisfazer desejos íntimos e as mais loucas ambições emocionais.

Usamos a moda como uma arma de sedução para conquistar amores ou amantes, como um abrigo que nos afasta do mundo real e dos problemas cotidianos, como esconderijo ao criar um capa ou véu na nossa real identidade, como forma de diversão se brincarmos com a vida, como vitrine de crenças e credos ou mesmo como símbolo de status para conquistar espaço ou abrir novos caminhos. Nessas exemplificações apenas algumas das possibilidades da moda, não como produto mas como um meio, que faz com que nós mulheres possamos nos sentir poderosas e donas de nosso mundo, manipulando nossa imagem para conseguir o que queremos.

Sendo assim podemos concluir, ainda que de forma vaga e poética, que com a moda encontramos mais uma maneira de sermos donas de nossa vida e de nosso caminho! Por mais que a figura feminina esteja historicamente ligada a possível fragilidade e carência, em graus variados, é fato que desde sempre houve essa veia que nos impulsiona a desejar abraçar o mundo – com muita vontade de ser fazer ouvir! E a moda é perfeita para tal brincadeira. Ela é arma… essencial e fugaz de forma frívola e efêmera.

Esse post foi originalmente publicado no Conversinha em 2009, mas não poderia ser mais atual.

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