Nem as semanas de moda surpreendem mais, em um tempo de ciclos de consumo velozes ao extremo

Vivemos em um mundo de tendências, de referências de comportamento, consumo, estilo de vida. Estamos constantemente sendo orientados a seguir um determinado padrão, colocado pela mídia, como um todo, e também pela própria sociedade que em cada tempo escolhe o que é tido como adequado ou como esperado. Tudo está interligado e somos parte, personagens, dessa história.

Tais padrões afetam naturalmente as nossas escolhas e também os nossos desejos. Em se tratando de imagem, de moda, esse efeito é claramente visível no dia-a-dia. Antes, vivíamos a espera de uma nova temporada, das semanas de moda, ansiosos pelo que seria apresentado como proposta, como referência. Hoje, já assistimos a esses eventos preparados para o que será apresentado e quase nada, ou nada, surpreende. Não há mais o efeito surpresa, o suspiro, as conclusões quase que mágicas do que será hit em alguns meses. Não há porque essas ideias já foram apresentadas, analisadas e usadas pelas referências, pelas blogueiras, pelas tais fashionistas; ou mesmo porque já sugamos de outros mercados, de outros países, tudo o que poderia ser utilizado e já não temos mais com o que ficar encantado. Antes mesmo de uma tendência estourar, as marcas se adiantam com suas coleçoes especiais e lançam no mercado, com assustadora velocidade, o produto com o qual sonhamos na noite anterior.

Fruto deste efeito, de tal aceleração, as semanas de moda parecem ter um outro tipo de clima, no qual as tendências das passarelas já estão nos corredores, ou logo ali na primeira fila. Mas, o que aconteceu para que o ciclo da moda chegasse nesse ponto, em tal ritmo?! Aparentemente trata-se de um reflexo da cultura do consumo, de um universo que não pode mais ser alimentado de tempos em tempos – de meses em meses. Se antes ciclos duravam 50 anos, hoje não duram nem cinco meses, ou semanas. O desejo deve ser permanentemente renovado e vivemos em uma eterna corrida para conquistar o que é impossível de ser conquistado. Adquirimos a última tendência e já estamos perseguindo uma outra, e isso vai além das roupas ou bens de consumo. Ter e ser se misturam.
Assim, antes de se sentir mal por não conseguir conquistar tudo o que disseram que você deveria ter, vale entender que tudo isso faz parte de uma grande teia pós-moderna, de um tempo que já não sabe mais o que inventar para alimentar uma cultura que supervaloriza o visual em detrimento de outras qualidade intelectuais. Mas, no fim, o vencedor não é aquele que comprou tudo; vence aquele que aprendeu a ser feliz sabendo que bens materiais não materializam paz e que estes apenas alimentam uma ansiedade extrema e uma sensação de vazio. É feliz quem enche seu guarda-roupa de acessórios para uma autoestima elevada e que tem em sua casa um ambiente agradável, aconchegante, para o qual é bom voltar após um dia de trabalho. Essas são as grandes conquistas para um homem e, por isso, os maiores desafios de uma sociedade que se preocupa tanto em ter que deixou de sentir, que quer tanto acumular que se esquece do valor e da importância de viver.
As citações são do livro “Vítimas da Moda?”, de Guillaume Erner.