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10 maio 2011
Deixe a criança ser criança…

Eu tinha uns 11 anos quando, na escola de jazz, participei de um concurso de coreografias e nosso coreógrafo utilizou como tema algo que levou o nome de ‘quero ser criança embora a tecnologia’. Foi uma super experiência, dessas que você não entende direito por causa da idade, mas que te deixa cheia de curiosidade quanto ao que há além da sua vida. Não, a gente não entendia muito bem o que dançava… nem nessa e nem nas outras muitas coreografias. Só com o tempo o jazz, a dança, foi ganhando sentido de fato. Apesar da seriedade dos ensaios, da rigidez com horários e da preocupação em decorar os passos (e as contagens) tudo era muito leve e divertido. Uma brincadeira na qual a gente sentia, ou ao menos eu sentia, que estava fazendo algo de adulto. E parava por aí. Nessa coreografia, onde dançavamos com a vontade de permanecer criança apesar dos avanços da tecnologia – que nos levavam a ter grande contato com televisores, jogos eletrônicos e computadores (bem no começo dessa história), o que era elemento de ligação com a infância eram ursinhos de pelúcia da Disney, que literalmente nos faziam companhia entre os ensaios. E as brincadeiras, ali, também moravam… apesar dos já presentes comentários sobre paquerinhas, gostar de fulano, gostar de beltrano… tudo imensamente inocente se comparado ao que meninas de 10 anos vivem hoje. Pois não é que essa preocupação com a tecnologia deu lugar a algo muito mais grave?! Hoje, nós, dançaríamos aos 6 anos de idade algo como “quero ser criança embora a vaidade”. E, assustador, é perceber que em 10, 15 anos a história caminhou para um lugar assustador no qual meninas (literalmente crianças) brincam de ser adultas e têm atitudes, hábitos e costumes que nossa geração (hoje na casa dos 20/30) só foi conhecer ao sair do colégio e entrar na faculdade – e olhe lá. Para onde estamos indo, e como estamos indo, é pergunta que me faço todos os dias olhando para a inocência, com dias contados, dos pequenos que amadurecem cada vez mais cedo e cada vez com menos preparo para o mundo. Apresentam cada vez antes sinais de arrogância, prepotência, preconceito… Claro que, no meio desses mini adultos, existem algumas joias raras para as quais olhos com incrível admiração, quase que parabenizando os pais por serem tão incríveis ao ponto de manter viva, nos filhos, a infância que dura cada vez menos tempo. Assim, me parece válido tentar manter ativo no dia-a-dia dos pequenos um toque lúdico e mágico que é tão essencial para a construção de sonhos e objetivos de vida. Digo isso porque eu lembro, muito bem, dos meus 5/10 anos de idade quando olhava com admiração as mulheres mais velhas e sonhava em um dia chegar lá – até que esse dia chegou. Tudo ao seu tempo, tudo tem sua hora. Estimular a vaidade de uma menina pequena é estimular muitas outras coisas que fogem do controle. E, vejo isso, muito mais claros nessa relação de mãe e filha, não tanto no jogo dos pais e filhos – talvez por sempre ter em mente o que eu fazia quando era mais nova, não sei bem como é o tempo dos garotos. E, ao ver mães de meninas de 12 anos preocupadas com o estilo das filhas, propondo consultoria de imagem, fico pensando no que passa na cabeça de um ser desses. A criança precisa se conhecer para conseguir estabelecer seu próprio diálogo com as roupas. Esse contato, tão importante, deve ser natural e não forçado. As fazes de revolta, de exagero, de descaso, sempre dão lugar a algo muito mais interessante – basta deixar as peças se encaixarem. E é desse tempo que as crianças precisam, do tempo para viver o que precisam viver, descobrir e aprender.

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  1. Rô!
    11/05/2011

    Tá ai uma coisa que também me incomoda muito. E já ouvi histórias de um amigo fotógrafo contando que as mães pediam para corrigir as “imperfeições” dos filhos. Crianças que muitas vezes não tinham nem 3 anos completos. Por sorte, esse amigo sempre foi contra e devia até dar um puxão de orelha na mãe. Gente, como pode isso, né? Como uma mãe pode olhar um bebê e enxergar imperfeições? Como alguém tem coragem de ‘photoshopar’ uma criança? (vide anúncios em que as crianças parecem bonecos de porcelana sem vida).
    Se continuar assim, o padrão de beleza perfeito e só possível via manipulação de fotografia vai alcançar a infância, assim como os salões de beleza já alcançaram. E se sofremos ao ver mulheres tentando se encaixar num padrão impossível, imaginem se isso se estender aos pequenos?

    PS: Desculpe o comentário desabafo, mas é que me incomoda muito esse assunto. =[